SOUNDS AND COLOURS BRAZIL (2013)

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MESTRE AMBRÓSIO, 1996

Lançado em 1996, em meio à efervescência do manguebit, o primeiro disco do Mestre Ambrósio era uma revelação: uma sonoridade crua, forte, visceral e incomum, nascida de uma relação intensa e radical com a antiga e tradicional música de rua do Nordeste brasileiro, sem apelos a conceitos nacionalistas ou discursos xenófobos, e até mesmo cultivando uma abertura saudável e sutil para elementos do rock e da música africana.

Para entender o impacto que a banda causou, é preciso ter consciência de que os trabalhos mais instigantes daquela época – Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A – embora tivessem entre suas maiores virtudes uma aproximação muito original do universo pop com algumas vertentes pouco celebradas da música brasileira, deixavam transparecer uma imersão muito mais profunda na cultura do hip-hop, do punk rock e da psicodelia.

A banda, uma das maiores responsáveis pela renovação do forró pé-de-serra, aventurou-se criativamente por gêneros ainda pouco valorizados, ou mesmo desconhecidos, pela juventude dos grandes centros urbanos – cavalo-marinho, maracatu de baque solto, coco de roda, cantoria de viola – e, no caminho, ampliou as possibilidades de utilização de instrumentos pouco lembrados, mas outrora muito populares no Nordeste – como a rabeca, a viola dinâmica, o fole de 8 baixos, o ilú, e a zabumba – e ajudou a chamar a atenção para os mestres da música tradicional de Pernambuco, como Luiz Paixão e Biu Roque.

As belas composições de Siba, um dos músicos mais criativos de sua geração, são um dos pontos altos do disco, pois ao mesmo tempo em que demonstram um raro domínio das linguagens musicais e poéticas tradicionais do Nordeste, conseguem alcançar o estágio ainda mais difícil em que o estilo pessoal do autor é imediatamente reconhecível. A força dessas composições, aliada à maestria dos quatro percussionistas, à expressividade da rabeca de Siba, e à performance
coesa do conjunto, mantém o frescor do disco até hoje, e várias das suas faixas já se transformaram em clássicos da música produzida no Nordeste.

É inegável a forte influência do Mestre Ambrósio sobre um grande número de músicos jovens, a partir do final dos anos 90. Alguns exemplos de influência direta podem ser percebidos no trabalho da banda Chão e Chinelo (do qual fui integrante, tocando viola e zabumba, ao lado do rabequeiro Maciel Salu, e do compositor Nilton Jr., atual líder do Pandeiro do Mestre); da Comadre Fulozinha (da qual fizeram parte Karina Buhr, Alessandra Leão e Isaar); da cantora Renata Rosa; de Cláudio Rabeca e do Quarteto Olinda; dos paraibanos da Cabruêra e dos cearenses da Fulô da Aurora; além de vários grupos de forró no sudeste brasileiro, e até mesmo na Europa e América do Norte.

Caçapa
Recife, 26 de maio de 2013.


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